Investigação da PF aponta que o ex-presidente da Câmara indicou R$ 6,1 milhões em emendas, apesar de não exercer mandato parlamentar
As 29 emendas parlamentares investigadas pela Polícia Federal por supostamente terem sido indicadas de forma irregular pelo ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG) foram registradas no sistema da Câmara dos Deputados como indicações da liderança do Republicanos na Casa.
As propostas foram apresentadas e aprovadas pela Comissão de Saúde ao longo de 2025 e destinam mais de R$ 6,1 milhões a fundos municipais de saúde de Minas Gerais. O montante teve a execução suspensa pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Embora não exerça mandato, Cunha é apontado pela PF como o verdadeiro responsável pelas indicações. As emendas parlamentares são recursos do Orçamento da União que podem ser destinados por deputados, senadores, bancadas estaduais e comissões. Não há previsão legal para que ex-parlamentares façam esse tipo de indicação.
Com base na investigação, Flávio Dino também determinou o bloqueio de mais de R$ 6,1 milhões em bens de Eduardo Cunha, valor equivalente ao total das emendas atribuídas a ele pela PF. O ex-presidente da Câmara nega ser o responsável formal pelas indicações. Em decisão semelhante, o ministro bloqueou bens do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, por suspeita de participação em um esquema de indicação irregular de emendas.Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles
Segundo a Polícia Federal, Eduardo Cunha utilizava uma servidora da Câmara para direcionar recursos conforme seus interesses políticos em Minas Gerais, estado pelo qual é pré-candidato a deputado federal.
A investigação aponta que Mariângela Fialek, assessora da presidência da Câmara conhecida como Tuca, coordenava o esquema. Ela foi alvo de uma operação da PF em dezembro do ano passado.
Tuca era responsável por despachar emendas parlamentares desde a gestão de Arthur Lira (PP-AL) e permaneceu na função durante a presidência de Hugo Motta (Republicanos-PB). Em um dos trechos do relatório, a PF afirma que “tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas” em favor de Eduardo Cunha.
Autoria das emendas
Os documentos que registram a aprovação das emendas da Comissão de Saúde mostram que as 29 indicações investigadas foram formalmente assinadas pela liderança do Republicanos na Câmara.
À época, o posto era ocupado pelo deputado federal Gilberto Abramo (Republicanos-MG), que comandou a bancada entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026. O Metrópoles entrou em contato com o parlamentar, que não se manifestou até a publicação desta reportagem.
As emendas de comissão são uma modalidade de indicação ao Orçamento cuja execução não é obrigatória pelo governo federal. A liberação dos recursos depende, na prática, de decisão política do Palácio do Planalto.
Após o fim das emendas de relator, conhecidas como “orçamento secreto”, o Congresso ampliou significativamente os recursos destinados às emendas de comissão. Em 2022, essa modalidade somava R$ 329,4 milhões. Em 2023, o valor saltou para R$ 6,9 bilhões. Neste ano, chegou a R$ 12,1 bilhões.
A falta de transparência sobre quem realmente indicava essas emendas levou o STF a cobrar mecanismos de rastreabilidade. Em fevereiro do ano passado, Congresso e Supremo firmaram um acordo para estabelecer critérios de identificação dos autores das indicações.
As novas regras, aprovadas ainda em 2025, determinam que as emendas de comissão podem ser apresentadas pelos próprios parlamentares ou encaminhadas pelos líderes partidários aos colegiados. A aprovação deve constar em ata, com o registro do solicitante.
A Polícia Federal sustenta que Cunha utilizou justamente essas indicações formalizadas pela liderança do partido para direcionar os recursos conforme seus interesses.
As emendas investigadas
- Pedrinópolis (MG): R$ 60.378,00
- Lajinha (MG): R$ 330.930,00
- Varjão de Minas (MG): R$ 590.000,00
- Espera Feliz (MG): R$ 169.070,00
- Conceição do Rio Verde (MG): R$ 100.000,00
- Itamonte (MG): R$ 250.000,00
- Aracitaba (MG): R$ 150.000,00
- Santo Antônio do Aventureiro (MG): R$ 250.000,00
- São João Nepomuceno (MG): R$ 250.000,00
- Martinho Campos (MG): R$ 250.000,00
- Três Corações (MG): R$ 150.000,00
- Belmiro Braga (MG): R$ 200.000,00
- Mathias Lobato (MG): R$ 100.000,00
- Poté (MG): R$ 250.000,00
- Rio Preto (MG): R$ 200.000,00
- Aguanil (MG): R$ 150.000,00
- Cambuquira (MG): R$ 100.000,00
- Carmo do Cajuru (MG): R$ 277.020,00
- Matias Cardoso (MG): R$ 250.000,00
- Santa Rita do Sapucaí (MG): R$ 150.000,00
- Raul Soares (MG): R$ 472.980,00
- Urucuia (MG): R$ 200.000,00
- Ewbank da Câmara (MG): R$ 100.000,00
- Goianá (MG): R$ 103.939,00
- Oliveira Fortes (MG): R$ 46.061,00
- Guarani (MG): R$ 250.000,00
- Novo Oriente de Minas (MG): R$ 250.000,00
- Paiva (MG): R$ 200.000,00
- Piau (MG): R$ 300.000,00
Os investigadores destacam diálogos entre Eduardo Cunha e Mariângela Fialek nos quais o ex-presidente da Câmara trata de emendas assinadas por Gilberto Abramo.
Para a Polícia Federal, há “suspeitas evidentes de que diversas emendas parlamentares foram destinadas de maneira forjada, a fim de escamotear o real interessado nas indicações”.
Segundo a investigação, todas as emendas investigadas foram pagas, o que consolida a “efetivação do desvio de finalidade das emendas”.
Os investigadores afirmam ainda que os “elementos encontrados no celular de Tuca deixam claro que essas emendas eram indicações de Eduardo Cunha”. A corporação aponta que os investigados podem ter cometido o crime de peculato.
“O fato de que outros parlamentares tenham sido alocados como ‘solicitantes’ só agrava o processo de fraude de encaminhamento e desvio dos recursos. Observa-se uma clara proeminência do deputado Gilberto Abramo que, como visto acima, foi apontado como parceiro político do ex-presidente da Câmara no estado de Minas Gerais”, diz outro trecho do relatório.
PF aponta “aval” da presidência da Câmara
No relatório enviado ao STF, a Polícia Federal também aponta indícios de que a presidência da Câmara tinha conhecimento das indicações atribuídas a Eduardo Cunha.
Para os investigadores, “tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas” em favor do ex-deputado. Na avaliação da corporação, a atuação evidencia um “altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”.
Nos bastidores da Câmara, Cunha é considerado um dos principais aliados tanto do atual presidente da Casa, Hugo Motta, quanto de seu antecessor, Arthur Lira.
Foi durante a gestão de Eduardo Cunha na presidência da Câmara que Hugo Motta ganhou projeção. Por indicação de Leonardo Picciani, então no MDB, o deputado paraibano assumiu a presidência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras.
Parlamentares também citam outro episódio da relação entre os dois. O atual presidente da Câmara contratou Dani Cunha (PL-RJ), filha de Eduardo Cunha e hoje deputada federal, para prestar serviços de marketing político. À época, Motta afirmou que o pagamento foi feito com recursos próprios.
Em uma publicação nas redes, em setembro de 2025, Motta publicou uma foto ao lado de Eduardo Cunha durante uma partida do Flamengo, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Na legenda, o paraibano se referiu a Cunha como um “amigo”. “Boa noite, já aqui no Mané Garrincha ao lado dos amigos Eduardo Cunha, André Fufuca e André Moura, para ver o nosso Mengão ganhar mais uma!!! Rumo a Tóquio!!!”, escreveu.
Em um trecho da investigação, a PF informa que a primeira conversa localizada em um aplicativo de mensagens entre Eduardo Cunha e Mariângela Fialek ocorreu em setembro de 2025.
Segundo o relatório, o ex-deputado aparenta lamentar uma situação e menciona conversas com “Arthur” e “Hugo”. Partes do diálogo, porém, foram apagadas por Mariângela Fialek, e a Polícia Federal afirma que não foi possível identificar o contexto da conversa.
O Metrópoles procurou a Câmara dos Deputados para comentar as conclusões da PF. Não houve manifestação até a última atualização desta reportagem. O espaço segue aberto.
Cunha nega irregularidades
A defesa de Eduardo Cunha afirmou que “desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas”.
Em nota divulgada à imprensa, os advogados sustentam que o ex-presidente da Câmara não “apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas”.
Segundo a defesa, as indicações foram “oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados”.
Os advogados informaram ainda que vão recorrer da decisão de Flávio Dino que determinou o bloqueio dos bens do ex-parlamentar. “Deste modo, a defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar”, diz a manifestação.
Fonte: Metrópoles





