Faltavam pouco mais de duas semanas para que o Chile se tornasse cenário de atos e manifestações em repúdio ao golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, quando o senador da direitista União Democrática Independente (UDI), Hernán Larraín, surpreendeu a todos com a inédita declaração: “Peço perdão pelo que tenha feito ou por ter me omitido do que devia fazer”. Era o lançamento do livro “Vozes da reconciliação”, editado por Larraín, e o senador achou que seria um bom momento para dar um passo que, segundo ele, ajudaria seu país a curar uma ferida que continua aberta. O gesto terminou sendo o primeiro de vários que se sucederam nas semanas prévias ao 40º aniversário do golpe comandado pelo general Augusto Pinochet, misturando-se à campanha para a eleição na qual o Chile elege seu sexto presidente após a ditadura encerrada em 1990 — e que tem a ex-presidente Michelle Bachelet (2006-2010), que foi sequestrada, presa e torturada no período de exceção, como favorita.
Nas últimas semanas, o golpe contra o presidente socialista Salvador Allende (1970-1973) passou a ocupar o centro da cena política chilena. Até o presidente Sebastián Piñera, primeiro representante da direita a ocupar o Palácio de la Moneda após a queda de Pinochet, condenou as violações dos direitos humanos cometidas por uma das ditaduras mais violentas das últimas décadas na América Latina. A atitude do chefe de Estado colocou a candidata oficialista Evelyn Matthei, cujo pai, o general Fernando Matthei, teve um papel importante no governo Pinochet, numa saia justa. Pressionada, a candidata falou sobre o assunto, mas suas declarações só pioraram a situação:
– Eu tinha 20 anos quando ocorreu o golpe, não tenho que pedir perdão por nada.
Matthei foi ainda mais longe e assegurou que não poderia ter feito nada mais, afinal, não tinha nenhum cargo político.
Sua resposta foi questionada pelo presidente. Em entrevista ao jornal “La Tercera”, ele afirmou que o argumento de Matthei “é um pouco enganoso, porque não estamos falando somente desse momento (do golpe), mas de tudo o que aconteceu depois”. Ficou evidente que os debates sobre os 40 anos do golpe contra Allende provocaram fissuras na direita chilena.
– Estamos vivendo uma saturação midiática sobre os 40 anos do golpe e os políticos estão sendo obrigados a definir-se e, em alguns casos, a pedir perdão como fez Larraín – afirma o analista político Guillermo Holzmann, da Universidade do Chile.
Para ele, não está claro se a estratégia de Matthei significará mais votos para Bachelet., mas certamente não ajudará muito a candidata da direita.
– O ambiente dos 40 anos favorece a Bachelet, porque existe uma continuidade entre os ideais de 1970 e o projeto da centro-esquerda de hoje – diz Holzmann.
O presidente também pediu gestos por parte das autoridades do Judiciário já que, segundo ele, “o golpe foi produto de responsabilidades compartilhadas” e vários juízes estiveram na lista de cúmplices da ditadura. A reação foi rápida. Na última sexta-feira, numa declaração histórica, a Corte Suprema de Justiça realizou um reconhecimento público da “omissão de suas responsabilidades durante a ditadura”. Em documento apresentado e lido pelo presidente do tribunal, Rubén Ballesteros, a Corte admitiu não ter cumprido seu dever na defesa dos direitos humanos por “ação ou omissão”. A palavra “perdão” não foi mencionada, mas o recado ficou claro.
Segundo o professor da Universidade do Chile, Piñera está tentando algo que nunca foi possível em seu país: “criar um espaço de convergência entre direita e esquerda sobre a ditadura”. Com esse firme objetivo, amanhã, o presidente realizará um grande ato em La Moneda para lembrar o golpe de 73 e, espera-se, condenar as violações dos direitos humanos cometidas pelo governo Pinochet. Mas a iniciativa do chefe de Estado não foi bem recebida pela centro-esquerda chilena e Bachelet, convidada como muitos outros políticos, de todos os partidos, já antecipou que não participará da cerimônia. A tão esperada reconciliação entre os chilenos ainda parece longe de ser alcançada.
Laços de família
Em campanha e tranquila na posição de favorita, a ex-presidente e candidata referiu-se várias vezes ao golpe de 73 e à repressão exercida por Pinochet. A morte de seu pai, o general Alberto Bachelet, em 1974, continua sendo investigada pela Justiça e o general Matthei é um dos suspeitos de ser responsável pelo assassinato de seu ex-colega de armas. Apesar deste trágico vínculo entre sua família e a de sua adversária nas próximas eleições, Bachelet prefere não falar publicamente sobre o assunto. Suas declarações são mais amplas e sempre num tom cuidadoso.
– Passados 40 anos do golpe de Estado, o Chile precisa saber o que aconteceu, encontrar-se com a verdade e a justiça – disse a candidata, que tem uma vantagem cada vez mais folgada em relação a sua ex-amiga de infância e rival..
Os próximos dias serão intensos para os chilenos. São esperadas manifestações, principalmente em Santiago, e dezenas de atos políticos em todo o país. (O Globo)






